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sábado, 28 de setembro de 2013

Nublando

Acordei! 
A casa estava quente como o meu corpo.
No silêncio do quarto 
a percepção
De que o amanhã havia acabado de despertar.
Entre olhos sonolentos,
O corpo arrepiado,
Transformou a superfície lisa em leves 
ondas.
Todos os músculos foram esticados.
Cada fibra estendida ao extremo.
A boca abriu-se...
Na frente o espelho revelava a silhueta,
Que dengosa percebeu suas formas delicadas
Nas curvas acentuadas. Sorri...
O tempo nublado percorreu e penetrou no 
aposento.
Intrometido!
Transformou a quietude com o suave zumbir dos ventos.
Trocou a cor pálida das paredes.
Deu vontade de cobrir, ficar 
encolhida, quieta.
Era hora da partida que não pode deixar 
para amanhã o adeus de todos os dias.
Deixei que os minutos passassem,
não fiz questão de segurá-los.
Que o tempo nublado chegasse,
penetrasse todos os meus poros.
Que as horas permitissem aos minutos serem donos do tempo.
No peito arfante os dois elementos se misturaram, nublando
Meus pensamentos.
Fizeram do corpo moradia.

Teresa Cristina Fraga

Danço com a noite

Ao som do silêncio
Da brisa do mar
Eu danço sozinha
No por do sol
Ao nascer da noite
Eu canto baixinho
Na luz do luar
Nos grãos de areia
Eu procuro você
Ao som da melodia
Me abraço com a lua
E danço pra noite. 

Rose Mary Sadalla

Aquele navio

Estava sentada, na tarde de estio,
Na beira da praia, olhando pro mar...
Ao longe avistei um enorme navio
E no encantamento me pus a cismar:
Que lindo navio!... Que histórias contém?...
Os seus passageiros, felizes serão?...
Que mares cruzou?... De que porto provém?...
Pra onde ele vai?... Que sutil sedução..
Que linda viagem minh'alma advinha...
Por que não partir e viver a ventura?...
Rever minha vida tão triste e sozinha
Há tanto sonhada, de amar com loucura...
Naquele navio... viajar sem destino...
Sair do meu mundo 
que é tão pequenino... 

Gladis Lacerda

Um dia a menos

(...) Sempre que distraidamente via seu nome escrito lembrava-se de seu 
apelido na escola primária: Margarida Flores de Enterro. Por que alguém não se 
lembrava de apelidá-la de Margarida Flores do Jardim? É que as coisas 
simplesmente não eram do seu lado. Pensou uma bobagem: até a sua pequena cara 
era de lado. Em esquina. Nem pensava se era bonita ou feia. Ela era óbvia. 
Depois. 
Depois não tinha problemas de dinheiro. 
Depois havia o telefone. Telefonaria para alguém? Mas sempre que telefonava 
tinha a impressão nítida de que estava sendo importuna. Por exemplo, 
interrompendo um abraço sexual. Ou então era importuna por falta de assunto. 
E se alguém lhe telefonasse? Iria ter que conter o trêmulo da voz alegre por 
alguém enfim chamá-la. Supôs o seguinte: 
- Trim-trim-trim. 
- Alô? Sim? 
- É Margarida Flores de Jardim? 
Diante da voz masculina tão macia, responderia: 
- Margarida Flores de Bosques Floridos! 
E a cantante voz a convidaria para tomarem chá de tarde na Confeitaria 
Colombo. Lembrou-se a tempo que hoje em dia um homem não convidava para tomar 
chá com torradas e sim para um drinque. O que já complicaria as coisas: para um 
drinque se deveria ir na certa vestida de modo mais audacioso, mais misterioso, 
mais pessoal, mais... Ela não era muito pessoal. E que incomodava um pouco, não 
muito.
E, além do mais, o telefone não tocou. 

Clarice Lispector

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Avesso

Como ventania
e mar revolto,
é a minha paixão 
cálida, inacabada...
saudade impaciente,
poetizada!
Avesso, a calmaria...
O teu silêncio,
desértico...
que provoca tormento,
tal qual areia fina na pele ao vento.
Teu avesso, minha ilusão
Um oásis não encontrado,
que deixa sede na alma,
desidrata fantasias
e perpetua a emoção.

Monica Amelia M. C. Lima

Princípio

Na paixão de um homem, na inquietude 
das feras, no vermelho 
que o fio 
da lâmina provoca
o olho acostumado a perscrutar 
as máscaras, as almas, o 
que não se confessa. 
Na origem profunda do ser 
Onde tudo começa 
na sua luta contra o tempo 
e contra a natureza 
em tudo há o 
desgaste 
em tudo o conflito se apresenta 
raiz do ataque e defesa 
há o mar, a fúria do mar 
e a força da rocha que o enfrenta.

Bruna Lombardi