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sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Perigo do dragão

Me falaram do perigo do dragão
o homem não consegue se livrar da castidade
da religião
da lei imposta da moralidade.

Dentro de mim mora o dragão
da natureza
espontâneo e suficiente
e por mais que me obriguem a fugir
não há nada que me tente
tanto.

Tem o caráter do fogo
o nervo, o temperamento
do proibido
e rompe a linha do extremo
além do sentido.

Dança o movimento sublime
ultrapassa o cerco
o limite, o crime, o desatino
além da nossa dualidade
na dimensão perigosa
de onde se extrai o destino.

Tudo está contido em tudo, cada coisa
se transforma em outra
contínuo o fio da ação
cada um carrega em si o seu oposto
a vida é o germe da destruição.

Bruna Lombardi

Autopseudobiografia

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
[Fernando Pessoa - Autopsicografia]
Finjo
um ventre exposto
para que palavras
me fecundem
Finjo
que me rendo
aos versos
como abrigo para
o eterno
Finjo
que dói
achar no espelho
cansaço e inquietude
Finjo
que ajeito
flores despencadas
cortinas tortas
travesseiros
gavetas
Finjo
que finjo
qualquer fingimento
e não mando flores
para mim mesma


Solange Firmino

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Se tudo existe

Se tudo existe é porque sou.
Mas por que esse mal estar?
É porque não estou vivendo do único modo
que existe para cada um de se viver e nem sei qual é.
Desconfortável.
Não me sinto bem.
Não sei o que é que há.
Mas alguma coisa está errada e dá mal estar.
No entanto estou sendo franca e meu jogo é limpo.
Abro o jogo.
Só não conto os fatos de minha vida:
sou secreta por natureza.
O que há então?
Só sei que não quero a impostura.
Recuso-me.
Eu me aprofundei mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado.

Clarice Lispector

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Tem acompanhante?

em 26.01.2012 – 16h30m
Durante o último mês, necessitei buscar serviços de emergência médica e a primeira pergunta feita sempre foi: “tem acompanhante?”
Após o diagnóstico quando, finalmente fui encaminhar a documentação para a hospitalização, o atendente administrativo pergunta-me: “o que a senhora é da paciente?” (ai meus sais!!!!)
Nesses longos e chatos dias de internação, passei a refletir sobre essa questão; por que uma pessoa que escolheu viver só, é responsável por si mesma, resolvendo individualmente todos os problemas do cotidiano, necessita estar acompanhada no momento de procurar auxílio hospitalar? Quando você torna-se paciente, involuntariamente, perde a sua autonomia, é alijado dos seus desejos, a máquina burocrática solicita sempre que ‘um familiar ou acompanhante’ autorize ou solicite algo por você – não interessa o teu estado de consciência, você não é considerado responsável, por encontrar-se doente, mesmo que mentalmente saudável.
Ainda nessa internação, antes de fazer uma endoscopia, a auxiliar liga para o meu quarto perguntando se eu tinha “condições de assinar um termo”. Haja paciência para agüentar ser tratada como incapaz....
A tua rotina de banho e alimentação é determinada por outras pessoas; o ‘cliente’, assim são chamados os pacientes agora, deixa de ser dono do próprio nariz até nas pequenas coisas... não é à toa que se precisa de um tempo de convalescença para voltar à rotina diária e recuperar o EU esmagado e sufocado durante a internação.
Escrevo esse texto enquanto estou no hospital, invadida pelo tédio, esperando o jantar (uma sopa creme de abóbora ou uma canja, servida enquanto o sol ainda está alto) e a troca de plantão para receber a minha medicação....
Mesmo eu tendo o direito a acomodações privativas, estou agora em um quarto duplo (casualmente o outro leito está vago no momento – já passaram 3 pacientes por ele, desde que vim para esse quarto). Tive a sorte de ter ‘companheiras’ de quarto agradáveis e com quem pude conversar para me distrair enquanto o medicamento pulsava lentamente para dentro do meu organismo, me deixando presa à cama – e a sensação é essa mesmo: de estar em uma prisão, sem direitos ou vontades próprias, seguindo as orientações de pessoas que você não conhece.
Além de ter confirmado as minhas crenças de que esse hospital não é bom – vim para cá por necessidade e falta de opção – devo levar na bagagem de volta algum aprendizado, como a importância da paciência, a tolerância com as regras e os diferentes modos de ser e agir e a necessidade de ser mais benevolente.

...Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria...

Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida.... (Milton Nascimento)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Porque

Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andressen

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Fugindo aos padrões

Sou uma mulher com mais de 40 anos, que mora sozinha e optou por não ter filhos.
Como tudo na vida, isso tem um ônus.
Por um curto período, morei com um companheiro mas, a convivência diária, destrói qualquer relacionamento que não tenha bases muito sólidas. E eu, não aprendi a construí-las. Atualmente, não abro mão de morar sozinha, também estou muito acostumada com as minhas manias e seria difícil ter que me desfazer delas – o meu desapego se restringe às coisas materiais.
A sociedade de um modo geral, não entende como uma mulher pode não querer ser mãe: nasceu pra quê, então?
Já relatei aqui que desde muito jovem aprendi a ser independente e não preciso de um homem que resolva os meus problemas domésticos – eles são tantos e tão chatos, mas se você pode contratar um profissional para executar o serviço somente com um custo financeiro, muito melhor e menos estressante (e você ainda pode reclamar que está mal feito, pedir pra fazer de novo e não precisa ficar agüentando as crises de mau-humor posteriores)
Semanas atrás, recebi uma mensagem de uma irmã que nem sei onde mora, imaginem o tamanho do nosso vínculo, me ‘jogando na cara’ que a filha dela – minha sobrinha, não tem 30 anos e “já teve seu filho, plantou árvore e agora escreveu um livro infantil”, as entrelinhas ficaram muitas claras, nem me dei ao trabalho de responder...
Criar um filho, envolve uma imensa responsabilidade – sem considerar os aspectos financeiros – eu nunca me senti apta a formar um novo ser humano (sou rotulada de covarde e egoísta por isso, tudo bem) e o mundo em que vivemos já está cheio demais de pessoas que nasceram ‘por acaso’; a capacidade física e energética do planeta está se esgotando, dentro em breve, não haverá comida, água potável ou espaço para as futuras gerações habitarem.
Defender a ecologia tornou-se um discurso politicamente correto há muito pouco tempo e ainda não foi apreendida pelas civilizações, o consumismo exacerbado, imposto pelo capitalismo e pela globalização, faz com que a quantidade de resíduos seja cada vez maior e não há o reaproveitamento dos materiais. A filosofia dos 3 ‘erres’ não combina com a política governamental ou midiática e por isso, é defendida por uma meia dúzia de gatos pingados vanguardistas, que são taxados de loucos ‘sem noção’.
Não sou a favor de levar uma vida franciscana – nem oito, nem oitenta – mas não entendo porque é necessário acumular bens que você não necessita, comprar roupas e calçados a cada estação (se você já tem um armário cheio deles) e ter, de forma egoísta, um meio de locomoção particular, para congestionar as ruas e poluir ainda mais o planeta.
A sociedade, e os governantes que nos representam e fazem parte dela, deveriam deixar de ser hipócritas e abraçar causas coletivas, que trouxessem melhorias na qualidade de vida de todas e todos.
Como uma gota de água no oceano, tenho tentando fazer a minha parte.

Sou gente que faz

Enquanto mantinha uma atividade acadêmica e profissional, me considerava uma pessoa questionadora dos métodos tradicionais, propositiva e crítica – estava sempre buscando uma nova forma de fazer, diferente do estabelecido e inconformada com os “cabrestos” impostos pela sociedade. Ao me afastar das atividades laborais, descobri em mim uma pessoa “tarefeira”: peça-me alguma coisa, que em seguida eu farei. Apesar de valorizar muito a minha independência, funciono na base do empurrão - preciso ser mandada!!!!
Não assisti ao filme Tropa de Elite porque a violência não me atrai – já é muito que vejo nos jornais – mas sei que um bordão dos protagonistas è “missão dada, missão cumprida”; depois de velha, tenho que assumir que isso se aplica perfeitamente a mim.
Paradoxos de Celia...
Ser organizada nas tarefas e uma grande base de dados ambulante, sempre foram características marcantes em mim, se precisassem de alguma informação ou alguma idéia inovadora, recorriam a mim e teriam uma resposta adequada à demanda. Como boa leonina, sou uma líder nata e adoro uma peleia, se sair ganhando!
Com o passar do tempo e, as conjecturas da vida, foram me acomodando e deixando de estar atualizada sobre ‘n’ assuntos e de ser esta referência para as pessoas; acho que sinto falta disso: de ser necessária ainda que seja para informar algum número de telefone.
Esse ostracismo em que vivo agora, é responsabilidade minha – sou Eu na terra e Deus no céu – e, por vezes, sinto falta da vida estimulante e estressante que levava mas, ao mesmo tempo, é tão bom não precisar sair de casa quando está um calor ou uma chuva infernal, poder dormir à tarde e não ter compromisso algum.
Paradoxos de Celia...
O cérebro não deixou de funcionar – é o corpo que não acompanha o ritmo – o meu irmão mais velho e minha cunhada, que visito regularmente, trabalham com artesanato e ele sempre diz: “Celia, para de ter idéias” (porque serão eles a executar, já que eu não tenho nenhuma habilidade manual – mal sei pregar um botão)
A nossa vida é uma constante descoberta e manter a curiosidade e o interesse pelo mais variados assuntos é fundamental para nos mantermos vivos – preciso recuperar a Celia que deixei pelo caminho J
Hoje vou em busca de uma nova descoberta, que talvez não seja muito agradável mas, é necessária no meu processo de desenvolvimento pessoal e, se precisarem de alguma informação, é só pedir, estou sempre disponível – posso não saber a resposta, mas encontro quem a tenha. Essa é uma filosofia que adoto: você não precisa saber de tudo, basta saber quem sabe.
Contem comigo quando precisarem de uma idéia ou de uma ajuda em alguma tarefa!!